Crise síria: jesuíta escreve carta aberta a Kofi Annan

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

24 Mai 2012

Antecipamos o texto da carta aberta escrita a Kofi Annan, enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe para a crise síria, escrita por Paolo Dall'Oglio, jesuíta e fundador da Comunidade Monástica de Deir Mar Musa.

O texto foi publicado no sítio da revista dos jesuítas italianos, Popoli, 23-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na carta, que o jesuíta pretende entregar pessoalmente ao ex-secretário-geral da ONU que está em visita à Síria nestes dias, pede a criação de uma força de paz de 3.000 mil soldados, para garantir o respeito ao cessar-fogo e a proteção da população civil, acompanhados por 30 mil voluntários da sociedade civil que apoiem a retomada da vida democrática no país.

"A presença desarmada da ONU hoje na Síria – conclui o Pe. Dall'Oglio – é uma profecia gandhiana que vale muito mais do que a crise pontual que se quer resolver. A prioridade é, então, proteger a liberdade de opinião e de expressão da sociedade civil síria, sem a qual é impossível buscar os outros objetivos essenciais para a pacificação nacional".

Paolo Dall'Oglio, jesuíta de Roma, fundou em 1982 uma comunidade monástica, masculina e feminina, no antigo mosteiro de Deir Mar Musa al-Habashi (São Moisés, o Abissínio), 80 km ao norte de Damasco. Pela sua atividade, em 2006, Dall'Oglio ganhou o Prêmio Euro-Mediterrânico pelo Diálogo entre as Culturas. Depois do início da guerra civil síria, o jesuíta foi ameaçado de expulsão pelo governo, e, em fevereiro, o mosteiro foi alvo de uma misteriosa invasão de homens armados.

A experiência de Deir Mar Musa é contada no recente livro La sete di Ismaele (Ed. Gabrielli, 2011), que reúne os artigos publicados na revista Popoli nos últimos anos.

Eis a carta.

Exmo. Sr. Kofi Annan, Secretário-Geral Emérito da ONU,

Paz e bem. Com esta comunicação pública, gostaria de lhe expressar, acima de tudo, a gratidão por ter aceito esse encargo delicadíssimo para a salvação da Síria e para a paz regional. Aferramo-nos à sua iniciativa como náufragos em um bote! O senhor conseguiu superar o obstáculo da oposição russa a qualquer proposta que implicasse em uma autêntica mudança democrática.

Em perspectiva, a Síria pode e deve constituir um elemento de equilíbrio das problemáticas regionais, e não um câncer corrosivo. Parece-me que uma maioria de sírios pensa em termos de equilíbrio multipolar, e não nos de uma nova Guerra Fria. O povo sírio é tradicionalmente anti-imperialista, mas muito mais é a favor da criação de um polo árabe que representa o seu difundido desejo de emancipação e de autodeterminação. Um sentimento que implica a aspiração à verdadeira democracia e à reconhecida dignidade dos componentes culturais e religiosos dessa sociedade e dos indivíduos humanos que a compõem.

A dinâmica regional é marcada hoje por uma dificuldade real de convivência entre populações xiitas e sunitas e de concorrência entre elas. Isso também provoca graves mal-estares para as outras minorias, principalmente as cristãs. A primavera árabe, inicialmente caracterizada pela exigência, especialmente juvenil, dos direitos e das liberdades, corre o risco do desvio confessional violento, especialmente quando a irresponsabilidade internacional favorece a radicalização do conflito.

Senhor Annan, o senhor sabe melhor do que ninguém que o terrorismo internacional islamita é um dos milhares de arroios da ''ilegalidade-opacidade" (mercado de drogas, armas, órgãos, indivíduos humanos, finanças, matérias-primas...). O pântano interconectado dos diversos "serviços secretos" é contígua à galáxia do submundo também caracterizado ideológica e/ou religiosamente. Chama a atenção que pouquíssimos dias bastaram para altos representantes da ONU aceitarem a tese da matriz "al-qaedista" dos atentados "suicidas" na Síria. Uma vez aceita mundialmente a tese liberticida de que há na região apenas um problema de ordem pública, só resta esperar a retirada dos seus soldados da ONU para deixar à repressão todo o espaço necessário para obter o "mal menor".

O fato de o poder nuclear e confessional israelense ter interesse em uma guerra civil de baixa intensidade e de longa duração é apenas um corolário ao teorema. Acrescente-se que "os árabes" não são culturalmente maduros para a democracia "real", e o jogo está feito! Resta, em alternativa, a opção do esmagamento sobre a base confessional do país, talvez encontrando aos soldados da ONU um papel antimassacre para evitar excessos bósnios indecorosos.

Por causa das experiências nem sempre felizes dos observadores da ONU, o otimismo fica condicionado à emergência de uma concreta vontade de negociação no Conselho de Segurança e dentro do país, e a um grande apoio por parte da sociedade civil internacional à local. Três mil soldados, e não 300, são necessários para garantir o respeito ao cessar-fogo e a proteção da população civil da repressão para permitir uma retomada da vida social e econômica. É urgente pedir a abolição das sanções não personalizadas que punem as partes mais frágeis e inocentes da população.

Além disso, há a necessidade de 30 mil "acompanhadores" não violentos da sociedade civil global que venham para ajudar in loco o início capilar da vida democrática. Trata-se de favorecer uma organização estatal baseada no princípio de subsidiariedade e do consenso, favorecendo eventualmente aquela estrutura federal mais correspondente para as principais particularidades geográficas (a federação é o exato oposto da divisão!). Só dando confiança à autodeterminação dos povos em nível local se poderá restaurar a ordem e combater toda forma de terrorismo, sem cair de volta na repressão generalizada e sectária.

É oportuno e urgente criar comissões locais de reconciliação, protegidas pelos soldados da ONU e em coordenação com as agências especializadas da ONU, também em vista da busca dos detidos, dos sequestrados e desaparecidos das diversas partes em conflito. Também será necessário por o mais rápido possível a questão da reabilitação civil dos jovens envolvidos em organizações terroristas e criminosas.

O senhor repetiu que, para pacificar novamente, é preciso um processo político de negociação. Mas se pode imaginar isso sem uma verdadeira mudança na estrutura do poder, especialmente em uma situação como esta, em que o governo é uma fachada, e o regime no poder também obedece a um grupo obscuro de super-hierarcas? É preciso salvar o Estado, certamente. Ele é de propriedade do povo. Mas primeiro é necessário libertá-lo.

A sua iniciativa, caro Sr. Annan, marca uma etapa revolucionária no caminho do exercício da responsabilidade internacional na resolução dos conflitos locais. A presença desarmado da ONU na Síria, hoje, é uma profecia gandhiana que vale muito mais do que a crise pontual que se quer assim resolver. A prioridade é, então, a de proteger a liberdade de opinião e de expressão da sociedade civil síria, sem a qual é impossível buscar os outros objetivos essenciais para a pacificação nacional.

Com estima e gratidão.